quinta-feira, 26 de março de 2009

Amar é Sofrer?

(*) Patrícia Carvalho Zugaib

“Como esse amor que sinto é imenso. Não pensei nunca na minha vida que aturaria tanto desrespeito de uma pessoa, nunca imaginei que um dia eu aceitaria traições, indiferença e ficaria como um fantoche, fazendo tudo que o outro queria, me deixando de lado.
Como dói terminar uma relação, onde investi todo o meu amor, toda minha energia, meus sonhos.
Tanto carinho... abri mão das minhas coisas, mudei meu jeito de ser, tudo para satisfazer quem? O outro. Para que ele pudesse ser feliz ao meu lado, para que ele não se sentisse diferente, nem inferior, tudo, absolutamente tudo para fazer com que gostasse de ser meu companheiro, para que fosse agradável ficar ao meu lado. Apresentei meu mundo, as pessoas que mais amo para o cara que amo, era tão gostoso.
Ele, que me fazia feliz, que me fez acreditar que o amor realmente existia e o principal, que eu ainda era capaz de amar e ser amada.
Meu Deus, foi tão difícil aceitar que eu podia amar e ser feliz novamente, acreditei, me entreguei da maneira mais pura, amei, amei tanto, tive momentos tão felizes e tão dolorosos.
Enlouqueci, sofri, mas o amor era tão grande e tão puro que acreditei que ainda poderia ser feliz, passei por cima de humilhações, dos momentos de frieza, das grosserias e de todos os outros os quais fui anulada na vida dele. Nunca estava em primeiro lugar e, muitas vezes, não estava nem em segundo ou terceiro. Mesmo assim, quando ele me dava uma migalha de atenção, eu me satisfazia e ficava extremamente feliz, então acreditava que poderia sim ser feliz e com isso relevava tudo.”
(Trecho de uma sessão de Psicoterapia)


Amar, não necessariamente está ligado ao sofrimento. É interessante a gente pensar na qualidade do nosso amor. Como amamos? Você já pensou sobre isto?
Quando estamos em uma relação afetiva, precisamos verificar como nos relacionamos, se é de maneira sadia ou doentia.
Para uma relação sadia, o casal precisa sempre ser muito franco um com o outro, o diálogo é de extrema importância para viver em harmonia. É fundamental, sermos honestos com a gente mesmo. Parar de “cobrir o sol com a peneira”, fingir que não está percebendo o que não está bom na relação.
Muitas vezes um dos dois percebe que o outro está diferente, não quer muita conversa, ou fazendo algo que desagrada a outra parte. Qualquer pergunta deixa a pessoa irritada, já não há carinho como antes e, assim, sucessivamente.
Então se o (a) parceiro (a) pergunta se tem alguma coisa errada, imediatamente o outro fica irritado e nega: “Você está ficando louco (a), que paranóia, só porque estou quieto (a) já acha que tem alguma coisa.”
Isto pode se tornar uma constante, o que de alguma maneira irá fazer você adoecer, ficar depressivo, paranóico, ter ciúmes patológico, doenças somáticas e acabar na cama como uma maneira inconsciente de chamar a atenção do outro.

Caminho errado

Quero ressaltar aqui que quando uma relação se torna doentia, sempre o parceiro que está mais equilibrado acaba por alimentar a insanidade do outro, seja através de comportamentos ou conversas que deixam o outro cada vez mais inseguro. Isso reduz a autoestima, não se reconhecer mais sem o outro.
Todas essas etapas fazem com que o amor realmente seja sofrido, dolorido e infeliz. Mas a pessoa que está nesta relação, não percebe sua infelicidade e não aceita que o melhor seria uma separação. Isso acontece porque a pessoa acha que separar é algo inadimissível, é como ser dividido ao meio, como se parte desta pessoa morresse.
Neste caso, é importante que o indivíduo faça um tratamento porque muitos casais que se separam, dependendo da qualidade deste amor, não conseguem aceitar o término da relação, o que torna esse processo mais difícil e dolorido. Muitas vezes as pessoas acabam tendo atitudes totalmente inadequadas, podendo até chegar a um ato de violência, tanto verbal quanto físico, contra si e contra o outro. Perder a pessoa amada, gera uma angústia, uma dor tão intensa que a pessoa acredita que a morte será a única solução.
Um ato contra o outro é, para essa pessoa, uma maneira de “implorar” seu amor e por não aceitar esta perda. A pessoa perde a medida e pode agredir o outro com faca, arma de fogo, com automóvel (atropelando a pessoa amada), etc. Se você percebe que sua relação está indo por este caminho, não adianta ficar se debatendo, achando que o problema está só em você.
Procure ajuda de um profissional, uma psicoterapia é muito importante para que você possa enxergar com clareza o que está acontecendo, retomar seus valores, sua autoestima e voltar a se integrar.

O amor com qualidade, é aquele que você não sofre, é algo maduro, sereno.É poder contar com o outro, é dividir e acrescentar, é respeitar e ser respeitado.



(*) Patrícia Carvalho Zugaib
Psicóloga Clínica
Rua Joaquim Távora, 222
F.55736979 - 91762067

terça-feira, 3 de março de 2009

FUMAR X NÃO FUMAR - O DEPOIMENTO

Dedico este texto a todos os usuários de drogas, seja ela qual for, e á minha melhor amiga!!!

FUMAR X NÃO FUMAR: O DEPOIMENTO

(*) Patrícia Carvalho Zugaib

É muito interessante conversar e observar as pessoas que fumam. E Depois quando elas param de fumar.
Dizem por aí, que “ex-fumante” é pior do que os que nunca fumaram. Eu, particularmente acredito que isto é muito relativo, pois depende muito do motivo que fez a pessoa parar.
Já ouvi muitas vezes pessoas falarem sobre sua vontade de parar de fumar, então, questionei: Até que ponto realmente esta pessoa deseja parar de fumar?
Sei que cada pessoa tem seu jeito de ser e de agir, e não estou aqui para criticar ninguém, somente para observar e ouvir, afinal, esta é minha profissão.

Ouvindo fumantes e ex-fumantes, percebo que o cigarro vai além de um vício, as pessoas o tratam como amigo, algo com quem possam desabafar, pensar, filosofar, ou simplesmente curtir uma fossa e/ou uma euforia qualquer.
O ato de tragar, ou fumar, implica também em um ritual - ritual este que também gera prazer, como por exemplo: acender um cigarro logo depois do café preto, fumar após o almoço, fumar quando está extremamente nervoso ou com raiva, quando está criando algo, e assim sucessivamente.
O cigarro para um tabagista é o seu maior amigo é aquele que não poderá faltar em nenhuma ocasião, e se caso ele não for bem vindo, o fumante fica desapontado, magoado e muitas vezes se sente ofendido.
Quando o fumante para de fumar e se torna aquele cara chato, que muitas vezes é um inconveniente, é somente um mecanismo de defesa, pois ele pode estar simplesmente com seu desejo recalcado e não assume o quanto gostaria de estar fumando.
Existe aquele ex-fumante que é legal, que não se incomoda com aquele que fuma, e deixa claro que se ele pudesse, ele também fumaria, partilharia daquele momento tão prazeroso, que somente um fumante sabe o que é.

Aqui então vai o depoimento de um ex-fumante.

“Resolvi parar de fumar, pois estava me sentindo cansado, tinha fortes dores de cabeça, meu nariz ficava estranho e já não tinha pique para mais nada.
Todos implicavam comigo, pois a maioria dos meus amigos não fumam... É interessante, porque nos primeiros dias não senti muita vontade, e nem tanta falta deste meu querido vício.
Com o passar dos dias, fui ficando mais irritado e sonolento, desejando um cigarrinho, que fosse somente para dar um “traguinho”, e isso aconteceu por vários dias.
Eu tentei resistir bravamente ao meu desejo de fumar, toda vez que passava um fumante por mim, eu respirava fundo com imenso desejo de pedir um cigarro, mas me sentia envergonhado, afinal porque que eu fui parar de fumar?
Essa realmente é uma questão que não me sai da cabeça, eu mesmo tomei uma atitude, e agora brigo comigo mesmo. Que loucura...
Às vezes percebo que já não sei o que e o porquê desta decisão que tive. Agora fico por aí, morrendo de vontade de fumar e não fumo, quando me pergunto eu mesmo respondo para mim, é melhor para você não fumar.
Aí, eu fico louco, porque digo isso para mim mesmo, quem foi que me mandou parar? Porque estou me consolando?
Olha só! Quanta briga interna em função do meu amigo.
Lembra daquela música do cantor Lobão? “um café, um cigarro, um trago, tudo isso não é vício, são companheiros da solidão...”
É isto mesmo, quando eu fumava, não me sentia só, eu e meu cigarro, sozinhos na mesa de um bar, era como se ele respondesse aos meus pensamentos acelerados e compreendesse minha tristeza.
Cada tragada, um alívio..., uma satisfação...
É assim que ele te acompanha, nos momentos difíceis e na mais profunda reflexão de sua vida.
Parar de fumar exige muito esforço. É como terminar um namoro ainda apaixonado por sua mulher, é como perder seu melhor amigo, é não ter ninguém para te acompanhar.
Existem situações em que a primeira coisa que desejo é acender o meu cigarro, e quando me lembro que não estou mais fumando, me dá uma tristeza, um vazio imenso, uma dor inconsolável.
Teve um dia a alguns meses atrás, que eu estava na mesa de um bar com um amigo meu, quando percebi um casal a minha frente. Comecei a olhar na mesa e vi que o sujeito fumava e minha vontade era de lhe pedir um cigarro. O pior de tudo é que fumava a mesma marca que eu fumava. De repente esse sujeito acendeu seu primeiro cigarro e eu não conseguia desviar o meu olhar do maço de cigarro do rapaz. Comecei a falar para o meu amigo da minha vontade, pois dizem que quando você fala, sua vontade passa, mas não foi o que aconteceu comigo - minha vontade foi aumentando de uma maneira que não agüentei e cai em um choro totalmente compulsivo.
Ali ficou provado o quanto o tabaco realmente dominou minha vida, sinto vontade várias vezes ao dia. Se vou voltar a fumar?
Não sei, aliás eu nem mesmo sei porque parei, o que sei é que só por hoje, apesar de amar minha droga, ainda vou me manter em recuperação.
Só por hoje!!!!!!”

Aqui ficou explicito o quanto é difícil uma pessoa parar com seu vício, uma vez que a droga de preferência se torna seu maior e muitas vezes melhor companheiro.
O ato de ficar sem a sua droga gera um imenso vazio, que faz com que o dependente questione o porquê ter que parar se ele não deseja, questionar o porquê não pode e porquê faz mal, e é neste momento em que todo dependente nega os males das drogas.
Dizem que o número de fumantes está cada vez menor, acredito que de ex-fumantes, pessoas mais velhas que por algum motivo, até mesmo de saúde, decidiram parar de fumar, mas quando observo os adolescentes, não é bem isto que encontro. Vejo meninos e meninas de 11 anos fumando se entregando a este prazer que nada de bom trará para seu futuro.


(*) Patrícia Carvalho Zugaib
Psicóloga Clínica
Rua Joaquim Távora, 222
Vila Mariana - São Paulo
F. 5573-6979 / 9176-2067